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Final de “Game of Thrones” sofreu dos mesmos problemas que o resto da temporada.

Final de “Game of Thrones” sofreu dos mesmos problemas que o resto da temporada.

ATENÇÃO: O texto abaixo contém spoilers do final de “Game of Thrones”. Não leia se não quiser saber o que acontece.

“Game of Thrones” não tinha como ganhar. O aguardado final da série, que foi ao ar ontem, estava fadado a dividir opiniões, dada a magnitude da saga da HBO, indiscutivelmente o maior fenômeno que a TV já produziu nos últimos anos. O roteiro dos showrunners David Benioff e D.B. Weiss, porém, pouco contribuiu para amenizar a controvérsia.

A conclusão de “Game of Thrones”, ainda que tenha trazido desfechos satisfatórios para parte de seus personagens, sofreu dos mesmos males que afligiram a série durante toda sua oitava temporada: o desenvolvimento apressado e as soluções rasas que, no fim das contas, não fizeram justiça à história e aos personagens que foram tão cuidadosamente elaborados pela maior parte dos últimos oito anos.

A virada de Daenerys em direção à tirania populista, ponto mais polêmico de toda a temporada, teve de ser didaticamente explicada por Tyrion: “Enquanto ela matava homens maus, nós comemoramos. E ela se tornou cada vez mais certa de que era boa e justa”. A ideia era mostrar como o poder e a busca por ele podem corromper – o que sempre foi o grande tema da série -, mas a fala soou mais como uma tentativa de ilustrar, às pressas, aquilo que a série não teve tempo de mostrar nos episódios anteriores.

Ao menos, a Mãe dos Dragões teve a chance de se expressar nesse episódio, ao contrário do que aconteceu com o penúltimo, que optou por não mostrar o rosto da personagem enquanto ela atacava Porto Real após os sinos da rendição soarem. Em um dos pontos altos do capítulo, e um dos grandes momentos da atriz Emilia Clarke na série, Daenerys deu um discurso impressionante diante de suas tropas – provando que não estava propriamente louca, mas cega pela ambição. Seu “quebrar a roda”, no fim das contas, não tinha nada a ver com a verdadeira revolução, mas com sua própria ascensão ao poder.

Isso deu um peso maior à simbólica (e mais do que apropriada) destruição do Trono de Ferro, derretido por um Drogon abalado pela morte da mãe. A comoção do dragão, aliás, foi um dos momentos mais emocionantes do episódio.

Tyrion também gastou um tempo precioso ao defender a nomeação de Bran ao posto de rei dos Sete Reinos com uma fala sobre a importância e o poder das boas histórias. O discurso, no entanto, soou vazio. A história do jovem Stark foi pouco trabalhada ao longo das últimas temporadas da série, com o personagem reduzido a um mero recurso para ser usado ao bel-prazer do roteiro, o que tornou difícil comprar a ideia de que ele estava destinado, desde o início, a ser o principal governante de Westeros.

Os destinos de outros personagens foram mais recompensadores. Sansa e Arya tiveram desfechos apropriados, uma reinando como rainha no Norte e a outra partindo em direção a terras desconhecidas – só é uma pena que a temporada não tenha nos brindado com mais cenas da habilidade política de Sansa, uma das personagens que mais evoluiu ao longo da série. O final melancólico de Jon Snow, condenado a retornar à Patrulha da Noite e atormentado pela morte de Daenerys, claramente fechou um ciclo para o personagem que mais foi guiado pelo senso de dever ao longo da produção.

“Game of Thrones” terminou em um tom surpreendentemente otimista e, até certo ponto, moralista, com todos os personagens que iniciaram guerras devidamente mortos. É uma mistura que parece contraditória com a trama que nos deu o Casamento Vermelho e a decapitação de Ned Stark, mas que, no fim das contas, talvez seja a grande surpresa reservada pela história criada por George R. R. Martin e adaptada por Benioff e Weiss.

O ritmo corrido e a ausência do cuidado que marcava os roteiros das primeiras temporadas tiraram um pouco do brilho de “Thrones” em sua reta final, que deverá ser alvo de debates por anos e anos a fio. É impossível, ainda que pouco produtivo, pensar no que seria caso a série tivesse um pouco mais de tempo para concluir sua história. O último episódio, ainda que entre bons momentos e boas atuações (notavelmente a de Peter Dinklage, como Tyrion), deixa um gosto levemente amargo. O legado da série, ao menos, está a salvo: não há dúvidas de que ela é a grande série da década, um fenômeno que não deverá ser igualado tão cedo.

admin

maio 20, 2019 18:56

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