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Marcela Braga

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O que o agronegócio ganha com o 5G

5G

O Brasil entrou oficialmente na era da telefonia móvel de quinta geração com a realização do leilão do 5G, que aconteceu em novembro do ano passado. Ainda vai levar um tempo até que a maioria da população, urbana e rural, desfrute de todos os benefícios dessa tecnologia, mas as expectativas já são bem altas. De acordo com pesquisa realizada pela consultoria Omdia, em parceria com a Nokia, a perspectiva é que em 15 anos, a partir de sua implementação, o 5G traga ganhos financeiros acima de US$ 1,1 trilhão ao País. Para o agronegócio, a estimativa é de US$ 76 bilhões. Mas os efeitos técnicos dessa evolução começarão a ser percebidos bem antes desse prazo.

A velocidade de conexão do 5G é vinte vezes maior que a do 4G, o que garante uma agilidade superior no processamento de informações on-line, como o tratamento de dados brutos gerados, por exemplo, por estações agrometeorológicas. Isso sem falar no ganho em relação ao uso de imagens via satélite, favorecendo o desempenho de máquinas automatizadas, como colheitadeiras que estimam a produtividade por talhão, e na aplicação de drones para monitoramento de pragas e plantas daninhas. Para a chefe-geral da Embrapa Agricultura Digital, Silvia Massruhá, tecnologias como o 5G são determinantes e essenciais para o produtor rural. “O desafio é transformar todos esses dados em informações úteis que permitam a tomada imediata de decisões”, afirmou a pesquisadora.

Um sistema que trouxe grandes desafios já que, segundo Pedro Martins, engenheiro de produção e gerente de Sustentabilidade e Suprimentos da LivUp, a cadeia tradicional é 100% analógica e também pouco integrada. “Até agora o agricultor plantava sem saber para quem iria vender e quanto iria receber”, afirmou.

As vantagens da nova tecnologia já eram evidentes com o avanço da digitalização do campo, inclusive com o estímulo da pandemia do Covid-19. O distanciamento social aproximou produtores rurais dos dispositivos eletrônicos. Segundo a professora de Tecnologia da Informação da Esalq/USP Catarina Careta essa transformação vai aumentar. “O 5G vai intensificar a entrada na agricultura 4.0, permitindo a integração da cadeia de produção e trazendo ganhos como a melhoria da qualidade e o aumento da colheita”, afirmou.

Na opinião do presidente da ConectarAgro, Gregory Riordan, o Brasil começa a se equiparar aos países de primeiro mundo em relação à conectividade, se afastando mais rapidamente da época em que se vivia enorme atraso em relação à telefonia e à informática. “Na minha época, era luxo ter linha de telefone. Se fosse de celular então, era preciso ser muito rico ou muito diferenciado”, disse.

À VENDA O leilão do 5G entrou para a história como o segundo maior já realizado no País. De acordo com a Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel), o pregão levantou mais de R$ 47 bilhões com quatro faixas de transmissão: 700 Mhz; 2,3 GHz; 3,5 GHz; e 26 GHz. A mais atrativa para o agro é exatamente a de menor frequência, pois permite que o sinal percorra distâncias maiores, segundo o coordenador-técnido da Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA) Joaci Medeiros. “O agro tem grandes extensões de terras e a frequência de 700 MHz tem alto alcance”, afirmou.

A faixa era utilizada pela televisão analógica e à medida em que as empresas de telefonia móvel entenderam que era a melhor para o ambiente rural, iniciaram projetos para o setor. Um deles é o 4G TIM no Campo, que cobre mais de 6 milhões de hectares. Segundo o head de IoT da TIM, Alexandre Dal Forno, a meta é atender as áreas de plantio. “O objetivo é aumentar a produtividade dos nossos clientes, que hoje conseguem fazer a digitalização da produção agrícola”, disse. “Para ter evolução tecnológica no campo, é preciso que a conectividade chegue às áreas de cultivo.”

Para que isso ocorra, é necessário melhor infraestrutura comunicacional no meio rural, desafio que não é exclusivamente brasileiro. É mundial. A Índia, durante a padronização do 5G, por exemplo, atuou intensamente para garantir que os critérios de aprovação tivessem uma área de cobertura maior. A reinvindicação beneficiou outros países que travavam a mesma luta, como o Brasil. Tendo isso em vista, a Anatel estabeleceu, entre as regras do leilão 5G, dois pontos fundamentais: o prazo (dezembro de 2029) para que todos os municípios brasileiros, com até 300 mil habitantes, tenham acesso à tecnologia, e a obrigatoriedade das operadoras investirem na cobertura de rodovias, escolas e áreas remotas sem visibilidade econômica.

AGRO VIÁVEL As contrapartidas impostas pela Anatel, junto à grande repercussão do leilão 5G, colocaram em evidência a necessidade de conectividade em locais afastados, trazendo visibilidade para o campo. Assim, surgiram questionamentos sobre onde ir, como chegar e como aumentar a internet nesses lugares. As respostas a tais perguntas abrem caminho para a nova tecnologia que beneficia, automaticamente, a parte logística do agro, segundo o gerente de soluções de comunicação sem fio do Centro de Pesquisa e Desenvolvimento de Telecomunicações (CPQD), Gustavo Correa. “No início, o 5G estará disponível ao campo através da rede privada, mas também levará, mesmo que indiretamente, mais conectividade ao ambiente rural”, afirmou. Dessa forma, a porcentagem de áreas agrícolas que têm acesso à internet será bem maior do que apenas os atuais 23%, conforme dados do Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Mapa).

Na opinião do pesquisador da Esalq/USP, Rodrigo Maule, para possibilitar que mais áreas agrícolas tenham conectividade, é preciso um processo de expansão que leve em conta um modelo de negócio que viabilize economicamente a entrada do 5G no campo. “Pela lei, as operadoras devem ter um raio mínimo de cobertura nos municípios. Em muitos casos, nem isso elas fizeram”, afirmou o especialista. Para o pesquisador, que é um dos responsáveis técnicos pelo estudo Cenários e Perspectivas da Conectividade para o Agro, elaborado pelo Mapa, isso ocorre pela falta de viabilidade econômica, ou seja, de retorno financeiro satisfatório para as operadoras. Afinal de contas, a fórmula de remuneração dessas empresas está atrelada à quantidade de usuários. No campo, mesmo tendo um volume maior de dados, esse público é menor.

Melhorar a conectividade, permitindo que tecnologias como o 5G sejam acessíveis aos produtores, não depende apenas de uma política do governo ou de ação exclusiva das empresas. Para Gustavo Correa, do CPQD, trata-se de uma cooperação entre setores público e privado, e que precisa ter sustentação financeira. “Investir em uma área de produção de soja com poucas pessoas, mas alta produtividade e rentabilidade para o País, faz sentido. Em áreas que não preenchem esses critérios, não há sustentação financeira, e nesse caso outras tecnologias, como o satélite, podem ser utilizadas e são consideradas complementares”, disse. No final das contas, é preciso avaliar bem o tamanho do cobertor, para ninguém ficar com os pés de fora.

Brendon Araujo

Programador Musical da Rádio Atlanta

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